Segundo o ditado popular, Abril costuma ser...

sábado, 31 de janeiro de 2015

Diário de um passeio por Itália



Capítulo I

Pisar solo italiano

Foi há cerca de 1 ano que eu e o meu marido falámos pela primeira vez em fazer uma viagem a Itália.

Adoramos Portugal e achamos que temos um país maravilhoso e com muitos recantos ainda para descobrir. No entanto também pensamos que é importante sair deste rectângulo e conhecer outras pontas ou meios da Europa.

O plano inicial era alugarmos um carro e percorrer uma parte da Itália, depois percebemos que o tempo de que dispúnhamos para a viagem não permitia grandes trajectos de carro, para além do cansaço da condução, da preocupação com multas de estacionamento ou eventuais batidas, pois dizem as más línguas, que os italianos não fazem um condução defensiva. 
Bem, com tantos “contras” optámos por utilizar os transportes públicos em todas as nossas deslocações.

O nosso roteiro foi ambicioso! 

Roteiro do nosso passeio

Primeira paragem: Roma, pois claro! Aproveitámos uma "mega" promoção da companhia aérea, ainda, de Bandeira Portuguesa.

Chegámos a Roma num sábado logo pela manhã…era véspera de Páscoa. 
O primeiro impacto foi esquisito…estava de chuva! Após ter passado pelas Palmas abraçadas por um sol esplendoroso, a chuva italiana era tudo menos agradável!

 Ilha Minorca, 19 de Abril 2014. Foto de Inês Ventura

Ia eu a falar do impacto…pois é…começou logo no aeroporto…encontrar a casa de banho…e sinalética??...Se há coisa em que achei a Itália “deficiente” foi na sinalética… confusa e rara. Mas lá passámos esta fase e fomos apanhar o comboio para Roma.

Malta, atenção!…Não se dirijam a postos turísticos…comprem um bilhete normal como qualquer cidadão italiano. O rápido não compensa muito, pois a viagem é relativamente curta.

As primeiras impressões foram até bastante familiares, parecia que estava em Portugal…ao longo da linha-férrea, estações pouco cuidadas, grafites…ferro-velho... 
Mas a construção residencial é bastante diferente..muito harmoniosa…o mesmo tom nas paredes e arquitectura semelhante.

Dentro do comboio; bom não era classe “conforto”, mas digo-vos que era bem mais confortável que as carruagens que fazem o serviço Intercidades na linha da Beira Baixa, pelo menos na minha última temporada enquanto passageira frequente! 
Os passageiros…italianos normais…na sua vida quotidiana…E o “pica” sempre o “pica”! Entra na carruagem com um “Buongiorno” bem alto para ninguém “fingir” que dorme.

Em Itália, em qualquer transporte público, nunca se esqueçam de validar o título de transporte, há sempre um revisor sedento de “caçar” a multa. Mas eu acho bem, aliás aqui em Lisboa deviam adoptar as mesmas medidas…quantas vezes no metro, eu me virei para trás e empurrei o “espertinho” que se queria pendurar no meu passe!?

Voltando a Itália...fomos directos, ao hotel. Como o nosso meio de transporte entre cidades seria sempre o comboio, optámos por ficar bem perto dos estações de comboio.

Fomos recebidos por uma italiana muito simpática que nos informa com alegria que no dia seguinte ia estar sol! Chama o “camareiro”..de origem chinesa. Parecia um filme da máfia..o quarto que reservámos não era no mesmo edifício da recepção, na verdade era até em ruas diferentes.
E lá fomos nós de malas a tiracolo, atrás de um chinês de capa em pele preta até aos pés, e só por isto parecia um filme de mafiosos, já que o senhor, de poucas palavras, foi simpático.

O quarto? Bem, ficámos muito agradados! Casa de banho grande, televisão boa, Wi-fi, ar condicionado…limpo e afastado do barulho das ruas.

Depois das acomodações, demos então inicio ao nosso passeio em solo romano. 
Já estava definido aonde seria até porque tínhamos comprado os bilhetes previamente pela Internet. ...Rumámos ao Museu do Vaticano.

Aconselho vivamente, a comprar os bilhetes para qualquer museu antecipadamente. No caso especifico…as filas circundam a Cidade do Vaticano. Quem for a Itália tem que ir preparado para filas…há sempre tanta gente! Até para tirar a foto sentados numa fonte..tivemos que alinhar e esperar a nossa vez.

Voltando ao Vaticano e como chegámos lá! De metro, claro está. Foi transporte porta-a-porta. 
Outra charada…o metro, ou melhor, as máquinas de compra de bilhetes. Infelizmente adiámos tanto a fotografia às máquinas dos bilhetes…que acabámos mesmo por não tirar. 
O método de introdução da moedas, é, na minha opinião, muito arcaico! Há quase sempre alguém que em troca de uma moeda nos pode introduzir o dinheiro na máquina…mas tentámos nós mesmos… e lá conseguimos!

Depois, o choque das estações de metro e da carruagem de metro em si. Para quem conhece a rede de metro em Lisboa, eu só posso dizer que a pior estação de cá é a melhor de lá! Corredores escuros, sujos, com pouca sinalética e transmitem mesmo insegurança!

 Metro, estação de Termini, 19 de Abril 2014. Foto de Inês Ventura

No próximo capítulo descreverei a visita à Cidade do Vaticano e o quão privilegiados nos sentimos por ter a oportunidade de ver tanta arte e engenho!


domingo, 27 de abril de 2014

Sugestão para férias - Mineiro por um dia na Mina de São Domingos

Nas margens do rio Guadiana lá bem para o profundo Alentejo localiza-se a Mina de São Domingos e a aldeia que lhe dá nome. São Domingos foi a primeira aldeia do país a ter electricidade e a ser servida pelo caminho-de-ferro.


Localizada no chamado “chapéu de ferro” da península ibérica, uma vasta área que se estende por cerca de 250 km de comprimento e cerca de 30 km a 50 km de largura, indo de Alcácer do Sal até Sevilha. Esta faixa piritosa é rica em cobre, ouro e prata de fácil extracção, há indícios de já ser explorada aquando da invasão romana na península ibérica (de 194 a 19 a.C).  

A mina de São domingos, hoje abandonada, foi explorada de forma intensa desde 1858 até 1965. A extracção era feita a céu aberto até aos 120 metros de profundidade, tendo os trabalhos continuado por meio de poços e galerias até aos 400 metros.
Segundo documentos históricos, foram retiradas 20 milhões de toneladas de cobre durante o período de apogeu da mina, que chegou a ser o maior empreendimento do sector mineiro em Portugal e na Europa até que foi desactivada em 1966, por alegada falta de viabilidade económica.

Após a desactivação da mina, a aldeia entrou em decadência económica. No entanto, prevalece a simplicidade das casas brancas e pequenas, outrora quartos de mineiros e a pureza do campo que se cheira e respira.
A cicatriz deixada pela mina, desde a cratera e lagoa ácida aos antigos edifícios da mina, faz parte de um quadro pintado de várias cores e transportam-nos para uma época industrial onde tudo era muito diferente de hoje. Actualmente, a Mina de São Domingos oferece a quem a visita a serenidade, a observação das aves, a praia fluvial e caminhadas. É uma excelente escapadela de fim-de-semana!


 Foto de Inês Ventura 2013 - Lagoa ácida da Mina de São Domingos 

Foto de Inês Ventura 2013 - Rua da Mina de São Domingos

Não existe, por enquanto, qualquer percurso pedestre homologado. No entanto, a Liga dos Amigos da Mina de São Domingos poderá à distância de uma mensagem na página do facebook, indicar locais de interesse e fornecer mais informação, quiçá uma visita guiada.

Mina de São Domingos é ainda palco do mais jovem festival de Verão. O “Festival Ilha dos Sons” realiza-se nos últimos dias de Agosto e teve a primeira edição e 2013.

Está a ser implantado um projecto de recuperação ambiental de áreas degradadas pela intensa exploração da mina e de recuperação de algum do património deixado pela empresa Mason & Barry, responsável pela rentabilização da mina. Os acordos entre a Câmara Municipal de Mértola e a Empresa de Desenvolvimento Mineiro (EDM) tornaram possível o projecto que se desenvolverá por 3 fases entre 2014 e 2020 sendo financiado na sua grande parte por fundos europeus. Assim, ganhará corpo a ideia de um “Parque Mineiro de Aljustrel”

O projecto inclui a criação de uma litoteca (uma biblioteca de rochas), a construção de um centro de estudos, a reabilitação de uma antiga galeria mineira subterrânea com 500 metros de extensão e 30 metros de profundidade e criação de percurso que torne a galeria visitável.

Para mais informações.
Liga dos Amigos da Mina de São Domingos
Município de Mértola
Festival Ilha dos Sons

terça-feira, 1 de abril de 2014

Sugestão para férias - Descida em canoa do maior rio português

O rio Mondego é o maior rio português. Nasce na Serra da Estrela como Mondeguinho e esgueira-se por entre quedas de água e rápidos cortando as rochas graníticas. Ao longo de cerca de 240km, as águas correm livremente, ou quase, não fossem algumas barragens, feitas pelo Homem, interromper o seu curso natural até se perder no Atlântico na Figueira da Foz.
imagem retirada de http://pt.wikipedia.org/ - Curso do Rio Mondego

O rio tem milénios de história, conhece-se referências desde o tempo dos fenícios quando ainda era navegável e romanos que contavam haver um rio para os lados da Lusitânia de uma beleza singular, de águas claras e puras. Apelidaram-no de Munda que significava isso mesmo; - transparência.
Hoje, o rio enfrenta alguns “estrangulamentos”. O forte assoreamento não permite mais a navegação, o surgimento do eucalipto nas suas margens ocupando o espaço que de choupos, salgueiros e ulmeiros podia ser e a agricultura intensiva, para além das barragens que já mencionei, interferem com o equilíbrio natural do rio.
Em tempos, protegido por reis e cúmplice de eternos amores [Inês de Castro e D. Pedro], o Mondego continua a oferecer a beleza dos seus vales estreitos, das suas praias a ser lar de aves e anfíbios envolvidos de mistério e ainda tem a ousadia de desafiar os aventureiros para uma “corrida de canoas”.
No troço compreendido entre Penacova e Coimbra é possível fazer canoagem, para os mais e para os menos corajosos. Entre “pagaiadas” e banhos, silêncios e adrenalina, um e outro cantar do milhafre.
Vale bem a pena dedicar um dia para esta aventura! Eu já o fiz três vezes e quero sempre fazer novamente!
Foto de Inês Ventura 2013 - A minha terceira descida

Não deixem de visionar o documentário de Daniel Pinheiro Prémio Seeds of Science 2012 narrado pela voz tão familiar de Eduardo Rêgo sobre o Mondego da nascente à foz. 
https://www.youtube.com/watch?v=ztT9UXinq3E

Para mais informações sobre a descida em canoa neste e noutros rios portugueses
http://www.transserrano.com/

domingo, 30 de março de 2014

Sugestão para férias - Portas de Ródão e o rei Wamba

Na sua extensão dentro das fronteiras portuguesas, o rio Tejo, o curso de água mais extenso da península Ibérica é abraçado pelo monumento natural, as Portas de Ródão.
Ver mapa maior
As Portas de Ródão constituem uma ocorrência geológica e geomorfológica localizada nas duas margens do rio Tejo, nos concelhos de Vila Velha de Ródão e de Nisa. Este conjunto natural sobressai pela imponente garganta escavada pelo rio nas cristas quartzíticas da serra do Perdigão, com um estrangulamento de 45 metros de largura, correndo o rio entre duas paredes escarpadas, que atingem cerca de 170 metros de altura, que o imaginário interpreta como duas "portas". Uma a norte no distrito de Castelo Branco, Beira Baixa, e outra a sul no concelho de Nisa, distrito de Portalegre, Alto Alentejo.
Foto de Inês Ventura 2013 A montante das Portas

Este encaixe começou a ser escavado por erosão, há cerca de 2,6 milhões de anos, agravada pelos acidentes tectónicos associados à falha do Pônsul. Decorreu em várias etapas, reflectidas em terraços fluviais e plataformas embutidas por erosão, mais visíveis na margem direita a montante das Portas.
Terá existido um grande lago que "despejava" para as grandes profundidades imediatamente a jusante das Portas, por uma imponente queda de água antes de se atingir a actual fase de equilíbrio.
As Portas de Ródão, que servem de habitat para a maior colónia de grifos do país, são um local privilegiado para a investigação de fauna e avifauna, onde podem ser observadas 116 espécies de aves, muitas delas consideradas em vias de extinção e algumas raras.
Na margem Norte surge sobranceiro o Castelo do Rei Wamba. Bem, não se trata concretamente de um castelo à semelhança do castelo de São Jorge ou dos outros 126 (principais) por este país fora. É mais propriamente, uma torre de menagem.
É, no entanto, de saudar o esforço de reconstrução/requalificação que foi desenvolvido. Este conjunto de interesse público inclui também uma ermida – Capela de Nossa Senhora do Castelo – e uma muralha. O acesso, feito por estrada, é fácil.
Foto de Inês Ventura 2014

Wamba fora o último dos reis visigodos, e “reza a lenda” que foi mal amado e que ao descobrir esta condição assassinou a esposa e a empurrou escarpa abaixo. Enfim, um misto de romance com terror que empresta à experiência de contemplação do rio, da paisagem e birdwatching, uma emoção acrescida.

Se gostarem de passear e fazer actividades em harmonia com a natureza, vão querer, com certeza, procurar algumas caches por ali escondidas (geocaching) ou percorrer 1 ou os 2 percursos pedestres sinalizados - "a rota da invasões" e "o voo do grifo" (pedestrianismo).

Podem encontrar mais informação em 
http://www.cm-vvrodao.pt/
http://www.ocaos.org/index.php?option=com_content&view=article&id=69:vila-velha-do-rod&catid=37:castelo-branco&Itemid=73

sábado, 19 de junho de 2010

Sugestão para as férias - Fluviário em Mora

Quero partilhar convosco uma viagem que fiz ao longo do curso de um rio ibérico desde a sua nascente até à foz. Tive oportunidade de observar os diferentes habitats e os seres vivos que integram cada parte do rio.
Foi uma viagem curta no tempo, mas bastante longa no conhecimento, onde pude observar diferentes espécies de água doce, algumas já desaparecidas dos nossos rios como o esturjão, outras cuja existência atinge patamares críticos como os saramugos que habitam a nascente dos rios e depois todas as espécies que, não correndo risco de extinção, devem ser respeitadas pelo homem pois são parte de um ecossistema onde todos os níveis dependem dos níveis anteriores.
A fazer as delícias de todos os que se interessam em conhecê-las, as raias, as trutas e as lontras mostram-se destemidas. 

Nesta viagem, fui ainda, teletransportada para outros ambientes de água doce da bacia amazónica e africanos e aqui deparei-me com as temíveis piranhas e uma anaconda, com os peixes-gato e enguias-dinossauro.
Quando terminei o percurso, apetecia-me ver muito mais e de repente fiquei triste porque para assegurar todas as comodidades do modo de vida do Homem, outras espécies são privadas das suas comodidades e hábitos e apenas uma pequena quantidade consegue adaptar-se, na esmagadora maioria, desaparecem.
Os principais problemas que afectam os ecossistemas fluviais são:
- A poluição das águas por efluentes industriais e domésticos que resulta na acidificação das águas e sobrecarga de azoto e fósforo favorecendo a eutrofização.
- A construção de represas, diques e barragens, produzindo efeitos acima das barragens, entre eles, a deposição de sedimentos, a redução da corrente e aumento da matéria orgânica suspensa favorecendo a eutrofização. Estas construções constituem ainda uma barreira às migrações dos peixes e também produzem efeitos abaixo das barragens, reduzindo o caudal.
- O desvio do leito; diminuição de caudal
- A desflorestação
- A introdução de espécies exóticas
- A captura ilegal de espécies piscícolas protegidas.

Podemos fazer alguma coisa? Claro que sim! Podemos começar por esta descida do rio para conhecer os peixes e perceber como e do que precisam para viver e assim ficamos "Alerta"!


Para mais informações: http://www.fluviariomora.pt/

Pioneiros

Sempre que possível apresentarei nesta rubrica uma individualidade que de uma forma ou de outra carimbou a Terra com a sua genialidade, pioneirismo e “geografismo”, na esperança de despertar em cada um de vós a curiosidade e o aventureirismo que há em cada geógrafo ou apaixonado pela Geografia.

Damião de Góis

Considerado um dos maiores humanistas do seu tempo, Damião de Góis privou com as mais ilustres personalidades do século XVI.
Nascido em Alenquer em 1502, foi para a corte com 9 anos como moço de câmara do rei D. Manuel. Foi escrivão em Antuérpia, escritor, viajou pela Europa e conheceu os mais influentes do panorama cultural europeu da época.
Damião de Góis recebeu educação digna de um jovem fidalgo e em 1529 foi enviado em missão diplomática à Polónia, encarregado de tratar do casamento do infante D. Luís com a filha do rei Segismundo I, aproveitando para conhecer um pouco mais daquele país. Mais tarde foi enviado à Dinamarca e Alemanha onde terá assistido a um sermão de Lutero, o que lhe trouxe mais tarde alguns dissabores.
Em 1532, publicou aquela que seria a primeira obra de um português traduzida para inglês – o livro “Lagatio Magni Indorum”.
Góis interessou-se pela Geografia, chegando a conhecer o geógrafo Ramusio, aquando da sua passagem por Pádua, onde frequentou o curso de artes e direito. Entretanto casou-se em Haia com Joana Van Hagen e matriculou-se na universidade belga em 1539, tendo liderado o corpo de estudantes durante o cerco da cidade de Lovaina, pelas tropas francesas de Francisco I, em 1542. Esteve preso largos meses e foi libertado mediante o pagamento de um resgate. O imperador Carlos V recompensou-o com um brasão de armas.
Após 22 anos no estrangeiro, regressa a Portugal e em 1548 foi nomeado guarda-mor da Torre do Tombo.
Para além da Geografia, Damião de Góis era um apaixonado pela música, tendo aprendido a tocar vários instrumentos e ainda composto, pelo menos, uma música “Não te alegres, inimiga minha”.Faleceu aos 72 anos depois de perseguido e encarcerado pela Inquisição, na sequência de um processo de calúnias e acusações de “herege, luterano, pertinaz e negativo”.
Reza a história que Damião de Góis terá pernoitado numa estalagem a caminho de Alcobaça, e que foi encontrado morto na manha seguinte, caído e parcialmente queimado junto à lareira em frente da qual adormecera, não se sabe bem, se quando ia a ser transferido para outra prisão ou se após a sua libertação por doença. Lenda ou realidade, não há provas que o confirmem.
Em 1941, quando os restos mortais de Góis foram transferidos da Igreja da Várzea, em Alenquer para a Igreja de S. Pedro, reparou-se que o seu suposto crânio apresentava uma fractura, que poderia ter origem numa pancada na parte de trás da cabeça. No entanto, embora não se possa determinar a causa da morte da pessoa com aquele, suposto, crânio, após serem efectuados testes de radiografia digital, tumografia axial computorizada (TAC) e densitometria óssea, concluiu-se que a ranhura visível neste crânio se deve a uma agressão físico-química - denominada desnaturação óssea - e não a qualquer pancada!




Fecha-te escola!

Para ajudar a compreender melhor a actual polémica do fecho das escolas, propus-me fazer uma breve abordagem do que está por detrás das decisões tomadas no que respeita a organização e gestão da rede escolar, e mais que isso, da rede educativa nacional.

Antes de mais, existe todo um suporte legislativo que determina, regula e indica como se deve e quem deve actuar no planeamento da rede escolar.
O primeiro documento sob a forma de “Carta Escolar” destinado a indicar as escolas existentes e a construir, a definir o número de aulas e zonas de influência de cada equipamento, foi lançado pelo DL nº 29 011 já na década de 30 do século XX.
Só cinco décadas mais tarde, no pós 25 de Abril, são introduzidas melhorias e é dada outra dimensão ao sistema de ensino. Surge então a Lei de Bases do Sistema Educativo (Lei nº 46/86, de 14 de Outubro) que estabelece a obrigatoriedade de 9 anos de ensino universal e gratuito, assegurado pelo Estado, ficando a frequência do pré-escolar, destinado a crianças com idades compreendidas entre os 3 anos e a idade de ingresso no ensino básico, à consideração de cada família, cabendo ainda assim, ao Estado assegurar a oferta de uma rede pré-escolar. O mesmo acontecia com o ensino secundário para alunos dos 15 aos 18 anos. Actualmente a Lei 85/2009 de 27 de Agosto alarga o regime da escolaridade obrigatória ao nível secundário.
Outro principio que destaco da Lei de Bases é a salvaguarda de que o planeamento da rede de estabelecimentos escolares deve promover a igualdade e a oportunidade de acesso à edução e ensino a todas as crianças e jovens, contribuindo para a diminuição das assimetrias locais e regionais.
Neste contexto, 30 anos depois desta Lei de Bases, procede-se então a uma reforma da rede escolar, implementando na prática os conceitos de escola integrada e território educativo, introduzidos por este documento legal. O território educativo define o espaço geográfico, servido de boas instalações que providenciem o cumprimento do ensino obrigatório, o sucesso escolar, a sociabilização, o funcionamento coordenado dos serviços de apoio socioeducativo e a rentabilização, racionalização e melhoria da qualidade dos recursos físicos, em regime integrado. A escola integrada é o conceito de um edificio escolar devidamente flexível para permitir a utilização para diferentes actividades e diferentes níveis de ensino, concebido para funcionar numa lógica de integração curricular e proporcionar aos alunos um modelo sequencial de aprendizagem. Esta reorganização tem por detrás um documento semelhante à Carta Escolar da década de 30 do século XX, mas desta feita, e por integrar outras actividades extra-curriculares e de ocupação de tempos livres, passou a designar-se por Carta Educativa.
A elaboração da Carta Educativa é da responsabilidade das Câmaras Municipais.
Esta carta Educativa obedece a uma metodologia cujos capítulos fulcrais apresento aqui:

- Enquadramento socioeconómico do concelho através da qual se tem uma ideia geral de como vive a população, das debilidades e potencialidades do território.

- Caracterização da oferta escolar e do parque escolar existente. A oferta prende-se com a quantidade de estabelecimentos, regime de funcionamento das escolas, número de docentes por ano de escolaridade, entre outros. No fundo, fazer um diagnóstico quantitativo e qualitativo da rede escolar existente, quer como serviço prestado, quer como estrutura física (edifícios onde se presta o serviço). Nesta fase os conceitos de Irradiação e Área de Influência, sendo o primeiro o valor máximo de tempo de percurso ou da distância percorrida pelos utilizadores entre o local de origem, normalmente a residência, e o local de destino, o equipamento, e o segundo a área delimitada pela irradiação, ou seja, pelos pontos cujo afastamento ao equipamento é maior, ajudam a perceber possíveis debilidades/carências no parque escolar.

- Caracterização da procura projectando o volume de população em idade escolar, actualmente estabelecida entre os 6 e os 18 anos, para o horizonte temporal da Carta Educativa, ajudando assim, a medir a necessidade de acrescentar ou retirar estabelecimentos, ou sem acrescentar nem retirar, reorganizar os equipamentos existentes.

- Propostas de reordenamento da rede educativa. Mediante as conclusões das fases anteriores procede-se às indicações para fazer cumprir todos os princípios preconizados pela Lei de Bases do Sistema Educativo.

Na minha opinião, tendo em conta conhecimentos adquiridos no âmbito de programação de equipamentos, parece-me razoável esta reorganização que o Governo vai pôr em marcha, contudo receio que a rentabilização dos recursos físicos e a diminuição de custos, tenha sido privilegiada em detrimento da qualidade da oferta e do sucesso escolar dos alunos. Preocupa-me os casos em que crianças se levantem às 6h da manhã para entrarem num autocarro, percorrerem estradas perigosas de aldeia em aldeia, não importa ao longo de quantos quilómetros, para estarem na escola às 9h da manhã e repetirem a “odisseia” ao final do dia. Qual é a energia da criança para desenvolver os conhecimentos e aplicá-los num exercício ou num jogo!? E aqueles casos em que as Câmaras Municipais investiram em melhoramentos nas escolas e dotação de tecnologias e agora as mesmas vão fechar por não terem o número mínimo de alunos? Deita-se o dinheiro à rua?
Em suma, deve avaliar-se bem, em alguns concelhos, o encerramento de escolas do primeiro ciclo, tendo em conta, não só, as condicionantes geográficas do território, mas também, o impacto que esse fecho tem na vida social de aldeias mais remotas, quer ao nível do abandono escolar precoce, quer ao nível, mais sensitivo, da alegria que cada criança emana numa aldeia de população envelhecida.

Para saberem mais sobre a legislação, a Carta Educativa e o sistema educativo em Portugal, recomendo a consulta no site do Ministério da Educação.
http://www.min-edu.pt/